
Linhagem que emergiu em Manaus provocou reinfecção de alguns pacientes que receberam o imunizante da AstraZeneca/Oxford; cientistas, no entanto, ponderam que ainda há uma boa proteção contra casos graves e óbitos
Rafael Garcia
09/02/2021 – 04:30 / Atualizado em 09/02/2021 – 09:31
SÃO PAULO — Ainda não há dados conclusivos em relação à eficácia das vacinas em uso no país sobre a nova variante do coronavírus em circulação. Mas pesquisadores afirmam que o risco desse subtipo do patógeno atrapalhar a imunidade coletiva não justifica interromper agora a vacinação contra a Covid-19.
Entenda: OMS alerta para pessimismo excessivo sobre vacina de Oxford contra a Covid-19
O debate sobre a P.1, a linhagem da Covid-19 que emergiu em Manaus e se disseminou na região, se intensificou depois que uma outra linhagem, a B1.351, se mostrou capaz de reinfectar alguns pacientes imunizados com a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca na África do Sul. No domingo, o país tomou a decisão de interromper a vacinação com o imunizante da farmacêutica anglo-sueca.
Como o imunobiológico da empresa é o mesmo que deve ser usado em maior extensão no Brasil, em parceria com a Fiocruz, e essas duas variantes do vírus têm características genéticas semelhantes, a preocupação foi imediata e compreensível.
Imunização: Vacina da AstraZeneca protege contra Covid-19 grave provocada pela variante sul-africana, diz cientista
— Se estamos vendo essa redução de eficácia da vacina da África do Sul, provavelmente poderemos sim ver algo semelhante com a nossa variante no Brasil — afirma Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, nos EUA.
Garrett diz não crer, no entanto, que a suspensão do uso da vacina de Oxford seria uma estratégia adequada no Brasil.
— Eles não suspenderam a imunização com a ideia de que é melhor parar de vacinar a população. Eles interromperam a vacinação temporariamente para avaliar uma nova estratégia, pois acabaram de comprar 20 milhões de doses da vacina da Pfizer — explica a cientista.
Expectativa: IFA para Fiocruz produzir a vacina AstraZeneca/Oxford chega ao Brasil no sábado
Os sul-africanos avaliam usar a vacina da Oxford/AstraZeneca em áreas rurais, mais isoladas, e aplicar outro imunizante nos grandes centros, onde há presença grande da variante B1.351.
Ainda não há uma pesquisa conclusiva sobre o quanto a vacina Oxford/AstraZeneca gera de imunidade contra o coronavírus P.1, mas a farmacêutica informa que já está fazendo testes.
Cientistas ouvidos pela reportagem ponderam que um dado relevante sobre a resposta do imunizante à variante sul-africana é que ele continua protegendo bem os pacientes contra casos graves, internações e óbitos.
Leia mais: Bolsonaro vota a favor em ‘plebiscito’ de irmãos sobre vacinar mãe
Representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) declararam ontem crer que há “um excesso de pessimismo em relação ao imunizante da Universidade de Oxford/AstraZeneca”.
— Esta vacina é parte importante da resposta global à atual pandemia — enfatizou Richard Hatchett, um dos coordenadores do consórcio Covax, ligado à OMS, que distribuirá o produto. — É absolutamente crucial usar as ferramentas de que dispomos da forma mais eficaz possível.
Reinfecção
Paralelamente à investigação sobre a eficácia das vacinas, em Porto Alegre (RS), cientistas já estudam o soro de pessoas com histórico de infecção por Covid-19 para saber se elas são propensas a contrair as novas cepas caso sejam expostas.
Leia mais: Cruz Vermelha anuncia plano para vacinar 500 milhões de pessoas contra a Covid-19
— Estamos testando a imunidade dos pacientes que tiveram coronavírus entre julho e setembro [com a cepa original], depois vamos testá-los contra a P.1 do Amazonas e contra uma nova variante que emergiu aqui no Rio Grande do Sul — diz a imunologista Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
O trabalho da pesquisadora não deve sanar a dúvida sobre se a vacina protege contra a nova cepa do novo coronavírus. Caso a reinfeção seja possível, porém, ela compromete o status de imunidade das dezenas de milhões de pessoas com histórico de infecção no Brasil e que hoje são contabilizadas dentro do quinhão de imunidade de rebanho, fundamental para se saber quando o país voltará à “normalidade”.
Fila da vacina: Ministério da Saúde já recebeu 45 pedidos para prioridade, de produtores rurais a aeronautas
Para o infectologista Júlio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, a pasta não soube articular neste momento a resposta à emergência da cepa P.1.
— Há pouca informação sobre se ela é mais transmissível ou mais letal — afirmou o especialista, que está nesta semana em Manaus prestando consultoria ao governo local justamente para lidar com a situação.
Para Croda, as pesquisas para avaliar a resposta da vacina à P.1 já deveriam estar prontas, e o Brasil, por sua vez, deveria estar se preocupando também em avaliar a eficácia da CoronaVac, a outra vacina disponível neste momento no Programa Nacional de Imunização.
— Existe uma falha de capacidade técnica do ministério de responder a essas perguntas — diz Croda. — Estamos perdendo muito tempo. Para as duas outras variantes de impacto epidemiológico, da África do Sul e do Reino Unido, já foram feitos pelo menos estudos in vitro.
Vigilância genômica
Outra necessidade apontada pelo infectologista é a de ampliar a vigilância genômica. É preciso sequenciar uma parcela maior de amostras de vírus no país. Hoje o Brasil sequenciou apenas 0,03% das amostras, enquanto o Reino Unido já tem 5% de suas amostras mapeadas.
O GLOBO contatou o Ministério da Saúde e questionou como a pasta avalia proceder diante da situação, mas não obteve resposta até a conclusão da edição.
Veja também: Ministro pede à AstraZeneca prioridade e agilidade no envio de insumos ao Brasil
Segundo os pesquisadores, enquanto não há resposta conclusiva sobre o impacto das novas variantes na campanha nacional de vacinação, é importante que as medidas de distanciamento e contenção do vírus sejam ampliadas. A maior circulação do vírus é um dos motivos da emergência de novas cepas do patógeno.
— Precisamos agora vacinar mais rapidamente o maior número de pessoas, reduzir a transmissão, fazer a vigilância para entender o que está acontecendo com essa nova variante e testar o impacto dessa cepa não apenas na vacina de Oxford mas na CoronaVac também — diz Garrett, do Instituto Sabin.
Fonte: O GLOBO
Leave a Reply