Seria cômico, se não fosse trágico: o paradoxo da energia cara em tempos de abundância.

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Por: João de Tidinha

Vivemos tempos em que a lógica econômica parece ter sido deixada de lado. A clássica lei da oferta e da procura — aquela que aprendemos no primeiro capítulo de qualquer manual de economia — diz que quando há excesso de oferta, os preços caem. Mas no setor elétrico brasileiro, essa regra parece ter sido invertida: estamos pagando mais caro justamente porque há energia demais.

O vilão, segundo especialistas, é o crescimento acelerado da geração distribuída, especialmente por meio de painéis solares instalados em residências. Durante o dia, essa energia limpa e renovável é injetada na rede em volumes que superam a demanda. O resultado? Um excesso de produção que, em vez de baratear a conta, encarece o sistema. Um paradoxo digno de Kafka.

O problema não está na tecnologia, mas na estrutura regulatória. O sistema elétrico brasileiro foi desenhado para lidar com escassez, não com abundância. E quando há energia sobrando, os custos de manutenção, compensação e redistribuição acabam sendo repassados ao consumidor. Ou seja, quem produz energia está sendo penalizado, e quem consome, também.

Diante desse cenário, o governo propõe uma medida paliativa: isenção de pagamento para quem consome até 80 kWh por mês. Uma proposta que soa bem em tempos de campanha, mas que ignora a realidade da classe média — aquela que consome mais, investe em energia solar e ainda assim vê sua conta subir. Por que não ampliar essa isenção para quem ajuda a gerar energia? Por que não reconhecer que o problema está no modelo, e não no consumidor?

Programas eleitoreiros são fáceis de anunciar. Difícil é enfrentar o nó regulatório, rever subsídios cruzados e propor soluções que distribuam os benefícios de forma justa. Porque no fim das contas, alguém sempre paga — e quase nunca é quem deveria.

 

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