
Por: João de Tidinha
Num país onde técnico de futebol é chamado de “professor”, professor é reduzido a “tio/tia” e corrupto recebe o título de “excelência”, não surpreende que a lógica se torne um espetáculo de humor involuntário. A inversão de valores virou rotina, e o Brasil parece ter se especializado em transformar o absurdo em normalidade.
Do mensalão ao petrolão, passando pela Lava Jato, o roteiro da corrupção nacional é digno de maratona televisiva. Cada escândalo surge como uma nova temporada, com personagens que se repetem e finais previsíveis. O episódio do “idosão”, marcado pelo roubo milionário dos aposentados do INSS, mostrou que nem os mais vulneráveis escapam. Agora, com bancos como MASTER e BRB e até o STF em cena, a trama ganha contornos quase surrealistas, como se fosse ficção política.
O mais curioso é a pompa com que se trata quem deveria estar no banco dos réus. O título de “excelência” funciona como salvo-conduto, enquanto o professor, que deveria ser reverenciado é infantilizado como “tio” ou “tia”.
Nos números, o contraste é ainda mais gritante: o piso salarial de um professor da rede pública é de cerca de R$ 4,8 mil mensais. Já jogadores de ponta recebem milhões por mês, e técnicos dos principais clubes chegam a embolsar entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões mensais. Em outras palavras, quem educa e prepara o futuro ganha menos em um ano do que um atleta ou treinador em uma semana. O “professor” do futebol é estrela e o verdadeiro professor, sobrevivente.
Nós, cidadãos, seguimos como plateia de um circo que nunca desmonta. Entre indignação e resignação, aprendemos a rir para não chorar. Afinal, se o técnico é “professor”, o corrupto é “excelência” e o educador é “tio”, já sabemos que as palavras perderam o sentido e os valores, o rumo.
A inversão de valores é mais que semântica, é cultural. É reflexo de um país que se acostumou ao paradoxo, onde o absurdo se torna rotina e a rotina, espetáculo. Mas há saída: o voto consciente e a alternância de poder. O eleitor não é plateia, é protagonista. Se o palco não pode ser desmontado, ao menos podemos trocar os atores e dar chance para que a peça deixe de ser tragicômica e se torne, finalmente, uma história digna de aplausos verdadeiros.





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