Hélio Pólvora
Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia
hpolvora@gmail.com
Os deputados federais, que puxam o cordão salarial dos seus colegas estaduais, queixam-se dos subsídios reduzidos: apenas R$ 16.512 por mês. Querem equiparação aos magistrados do Supremo Tribunal Federal, que até hoje nada decidiram sobre a legitimidade da Ficha Limpa. Ou seja, algo em torno de R$ 30 mil.
Esquecem, no entanto, de mencionar no contracheque uma ajuda de custo de R$ 35.053 para passagens aéreas (precisam visitar as bases eleitorais), fretamento de aeronaves em casos especiais, despesas postais e telefônicas, combustíveis, aluguel de escritório político, assinaturas de publicações, TV e internet e até contratação de seguranças.
Não é tudo. Há ainda a verba de gabinete, de R$ 60 mil para cada um deles manter de cinco a 25 auxiliares, mais despesas médicas, conta de telefone celular e dois salários extras por ano. A soma, sem as despesas prefixadas, chegaria, conforme calculou o jornal Correio do Povo, a R$ 114.565 mensais.
Suas Excelências ainda acham pouco. Deveriam, como naquele conto infantil, perguntar ao espelho: “Existe algum deputado de remuneração superior à minha, na face do planeta Terra?” O espelho diria não. Ou talvez lembrasse, envergonhado, o caso de um país miserável da África ou Ásia governado por uma ditadura feroz.
Ainda não foi definida, em visível jogo de batata quente – aquela que passa de mão em mão, até esfriar – a diplomação de Tiririca que arrebanhou 1,3 milhão de votos em São Paulo. A esta altura já deve estar bastante alfabetizado para assinar – e não desenhar – o nome nos recibos milionários da Câmara dos Deputados. Com ele, pior não fica, conforme pregou na campanha, em rima rica como seu apelido.
Dizem que Tiririca é bom palhaço. Palhaço bom tem de fazer rir. Quanto mais grosso e demorado o riso, tanto melhor. Os parlamentares brasileiros não provocam riso em nós, que os elegemos. Nem precisam, pois se contentam com o seu próprio riso. Por que não admitir de pronto o palhaço Tiririca, que tem a vantagem da sinceridade, do riso aberto e contagioso? Perguntar não ofende.
Transcrito do Jornal ATARDE- Edição de 28/11/2010
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