
Numa noite quente, eu estava sentado no passeio da porta de minha casa, tentando amenizar o calor que fazia na cidade, quando meu amigo chegou procurando um bate-papo. Sentou-se ao meu lado e, sem rodeios, perguntou:
— João, você é de direita ou de esquerda? Quem você acha que vai sair vitorioso: a direita ou a esquerda?
Antes de responder, fiquei pensando. Afinal, o que é ser “de direita” ou “de esquerda”? Devolvi a pergunta:
— Eu não sei. Tenho meus conceitos, meus valores. Mas você pode me dizer o que significa direita e esquerda? Talvez eu consiga me situar.
Para minha surpresa, ele respondeu:
— Vou lhe ajudar a se encaixar no campo ideológico da política.
E começou:
— Ser de direita é defender a liberdade econômica, a propriedade privada e um governo mínimo. Os direitistas acreditam que o livre mercado é o melhor caminho para promover prosperidade e inovação. Valorizam tradição, ordem e segurança, e tendem a ser mais conservadores em questões sociais e culturais.
Interrompi:
— Agora me situei. Eu sou de direita.
Ele sorriu:
— Calma, eu não terminei. Ouça tudo antes de se definir.
E continuou:
— A esquerda defende a intervenção do Estado na economia para reduzir desigualdades sociais e garantir acesso universal a serviços básicos como saúde, educação e moradia digna.
Depois disso, ele perguntou:
— E agora? Consegue fazer uma leitura entre essas duas definições?
Fiquei na dúvida. Porque, na verdade, eu concordava com pontos dos dois lados.
Da direita, eu concordava com:
- liberdade econômica
- propriedade privada
- governo mínimo
- incentivo à livre iniciativa
Da esquerda, eu concordava com:
- acesso universal à saúde
- educação de qualidade
- moradia digna
Em resumo, acredito que a melhor forma de combater desigualdades sociais é a educação. Não existe outro meio de uma pessoa mudar de extrato social sem ser pela educação. Também defendo a valorização do empreendedor, que gera emprego e renda; responsabilidade fiscal; inflação baixa; economia funcionando; e um Estado que cuide do essencial: infraestrutura, educação, saúde, defesa e segurança pública.
A única forma sustentável de reduzir desigualdades é investir maciçamente em educação integral. Os países mais ricos apostaram nisso: educação e tecnologia. Nada contra políticas de transferência de renda — desde que voltadas aos que realmente precisam: idosos, pessoas com deficiência e famílias em vulnerabilidade.
Meu amigo ouviu tudo e disse:
— Acho que não posso lhe classificar como direita ou esquerda. Você está mais para centro-direita.
Perguntei:
— E o que é isso?
Ele explicou:
— A centro-direita combina elementos dos dois lados, mas com moderação. Defende liberdade econômica, mas reconhece que o Estado precisa corrigir falhas do mercado e proteger os vulneráveis. Busca equilíbrio.
Depois disso, ele se despediu, dizendo que precisava acordar cedo. E eu nem perguntei a ele:
— E você? É de direita ou de esquerda?
Fiquei pensando sobre tudo isso.
Será que a grande massa trabalhadora está preocupada com rótulos como direita, esquerda, centro, radical, extremista? Acho que não. A maioria quer garantir seu emprego, sustentar a família, dar educação aos filhos, ter acesso à saúde, viver com dignidade e prosperar.
O problema é que, enquanto o povo tenta sobreviver, o país parece cada vez mais dividido. E essa divisão não é apenas entre lulistas e bolsonaristas — é entre brasileiros que passaram a enxergar o outro como inimigo.
Nesse cenário, instituições que deveriam ser pilares de estabilidade também enfrentam desgaste. O julgamento dos atos golpistas de 8 de janeiro, que foi considerado por juristas um marco histórico na defesa do Estado Democrático de Direito, ganhou enorme relevância nacional. Ele representou, segundo especialistas, a quebra de uma tradição brasileira de impunidade em episódios de ruptura institucional.
Mas, ao mesmo tempo, episódios recentes envolvendo suspeitas, investigações e crises internas no próprio STF têm abalado a percepção pública sobre a Corte. Ministros têm manifestado preocupação de que a crise de reputação contamine a legitimidade de julgamentos importantes, inclusive os relacionados ao 8 de janeiro. Em conversas reservadas, setores das Forças Armadas e da política têm explorado justamente esse desgaste para questionar decisões e pressionar por anistias ou revisões.
Ou seja: um julgamento que deveria fortalecer a democracia corre o risco de ser relativizado pela crise institucional que o país atravessa.
No Congresso, a disputa política se intensifica. Grupos tentam articular anistias, pactos e alianças para 2026. A oposição se reorganiza, o governo enfrenta dificuldades e o ambiente é de incerteza. Pesquisas mostram um país cansado, desconfiado das instituições e dividido em bolhas.
E, no meio disso tudo, fica a pergunta:
E quem não é lulista nem bolsonarista? Quem não vive de paixões políticas? Quem só quer um país que funcione?
Essa parcela enorme da população — talvez a maioria — fica órfã de representação. Não se vê nos extremos, não se identifica com discursos inflamados, não quer guerra cultural. Quer soluções.
E concluindo, talvez o caminho esteja justamente aí: no equilíbrio, no diálogo, na busca por políticas públicas que funcionem, e não em torcidas organizadas. O Brasil não precisa de salvadores da pátria. Precisa de instituições fortes, responsabilidade fiscal, investimento pesado em educação, segurança jurídica para quem empreende e proteção social para quem precisa.
Enquanto continuarmos divididos entre “times”, quem perde é sempre o mesmo: o povo que trabalha, que produz, que sonha — e que só quer viver com dignidade.





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