
Opinião do Estadão
Fórum Econômico Mundial mostra que saldo entre criação e destruição de empregos nos próximos anos será positivo, mas governos, empregadores e empregados precisam se preparar.
Até 2030, cerca de 78 milhões de novos postos de trabalho serão criados globalmente, de acordo com o Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025, organizado pelo Fórum Econômico Mundial e que, no Brasil, contou com a parceria da Fundação Dom Cabral.
Esse volume é o saldo líquido entre os 170 milhões de empregos que passarão a existir em um mundo de inovações tecnológicas e transição verde, entre outros vetores, e os 92 milhões de trabalhos que serão destruídos, digamos assim, em virtude da transformação do mundo do trabalho.
A boa notícia é que, como atestam as projeções do Fórum, desenvolvimentos que ainda assombram o mundo, como a inteligência artificial (IA), não dizimarão os empregos da face da Terra, como sustentam alguns profetas. Por outro lado, governos, empregadores e empregados têm muito a fazer para garantir o casamento entre habilidades e demandas desse renovado mercado de trabalho.
A educação, por óbvio, tem papel fundamental nessa equação. De um modo geral, no mundo todo é preciso que os profissionais estejam aptos a lidar com novas tecnologias que, se bem manejadas, garantirão a empregabilidade de milhões de pessoas.
Recentemente, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que um elevado porcentual (18%) de adultos de 31 países (o Brasil não foi avaliado nesse estudo) não domina nem mesmo os níveis mais básicos de proficiência em leitura, matemática e resolução de problemas. Trata-se de alerta importantíssimo, pois sem o conhecimento básico é impossível lidar com as tecnologias mais avançadas, aquelas que podem garantir vida ou morte no mercado de trabalho.
Para além do aprimoramento de competências básicas no mundo como um todo, é importante ter em mente que as necessidades de economias em diferentes estágios de desenvolvimento são assimétricas. Há ainda a questão do envelhecimento populacional, que é mais acentuada em países do Hemisfério Norte.
A demanda por profissionais da chamada indústria do cuidado (como enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos) deve aumentar nos próximos anos, principalmente naqueles países mais maduros do ponto de vista econômico e etário.
Já funções como as de caixa – em lojas, supermercados, bancos e cinemas, por exemplo –, além de assistentes administrativos, entre outras, tendem a perder cada vez mais espaço, o que exigirá que profissionais que atuam nessas áreas busquem requalificação para se manterem empregáveis.
Os desafios são múltiplos no caso específico do Brasil, país em que a economia ainda é de renda média, mas que, de acordo com o IBGE, deve perder em no máximo 15 anos o seu bônus demográfico – quando a parcela da população em idade ativa é maior que a de dependentes, isto é, crianças e idosos.
De acordo com o Fórum, os empregadores que contratam no Brasil entendem que a lacuna de competências (skills gap) é a principal barreira para a transformação dos negócios no País até 2030. Aqui há, contudo, uma grande oportunidade, já que as empresas que atuam no País preveem crescimento de vagas para especialistas em áreas como transformação digital, IA, cadeias de suprimento e logística, entre outras.
A demanda por tais funções faz com que a promoção de políticas educacionais efetivas torne-se ainda mais urgente. O Brasil, em que pese suas múltiplas deficiências, tem um mercado interno significativo, além de ser um grande exportador global e um dos países com maior potencial na área de transição verde.
Do ponto de vista das empresas, também é preciso maior racionalidade para que a boa prática da retenção e aprimoramento de talentos, benéfica tanto para quem contrata quanto para quem é contratado, seja mais constante. Nesse sentido, é alentador que, de acordo com o relatório do Fórum, nove em cada dez empresas no Brasil planejem aprimorar as habilidades de seu quadro de funcionários nos próximos cinco anos.
Tudo isso posto, não há motivos para temer o futuro, desde que haja empenho de todas as partes para se adaptar a ele.
Fonte: Publicado no Jornal o Estado de São Paulo
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