Sobre o oportunismo

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Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior

Entre os partidários da esquerda, há uma máxima que diz que todo aquele que não sofre pressões da realidade não está nela. As pressões são essencialmente oportunistas ou sectárias e vez por outra arrastam lideranças de trabalhadores e movimentos inteiros. A história registra muitos casos em que as pressões sectárias foram mais efetivas. Normalmente em conjunturas de exceção, o radicalismo pode descambar para o voluntarismo que, malgrado o heroísmo dos que tombaram, não nos impede de ver os erros.

Em momentos de democracia, as pressões mais eficazes são as oportunistas. Nos últimos anos, lideranças e organizações de esquerda pelo mundo converteram-se nas maiores defensoras da democracia que antes chamavam “burguesa”. Entre ex-dirigentes dos Tupamaros uruguaios ou sandinistas nicaraguenses, passando pelos que hoje ocupam postos-chave no governo Dilma, todos fizeram uma espécie de mea culpa pelo passado. Não olham para o próprio oportunismo que lhes catapultou aos altos cargos das nações.

Em passagem pelo Fórum Social Mundial realizado em Dacar, o ex-presidente Lula chamou seus ex-companheiros sindicalistas de oportunistas referindo-se à questão do salário mínimo.

Lula deve ter esquecido o significado do adjetivo que imputou aos dirigentes que hoje ocupam cargos que um dia o próprio Luiz Ignácio ocupou.

Outrora ele próprio já foi chamado de sectário ou oportunista, e os líderes da CUT e Força Sindical que apóiam o governo petista, há tempos vêm sendo acusados de oportunismo pelos trabalhadores que criaram organizações dissidentes.

A aprovação do salário mínimo de R$ 545 pelos governistas joga um novo capítulo na história do oportunismo à brasileira, pois entre a proposta das centrais e da oposição de direita no Congresso, sindicalistas governistas e parlamentares de DEM e do PSDB quase convergiram. Talvez o oportunismo no Brasil seja algo positivo, como no jargão futebolístico. Ou quem sabe chegou a hora de muitos parlamentares seguirem o exemplo do Fenômeno e pendurarem a chuteira, antes que a torcida comece a xingar. É uma boa oportunidade.

Transcrito do Jornal ATARDE – Edição de 19/02/2011

 

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